Entrevista a Tiago Brazão, membro da DORL PCP

Fonte Imagem: O Castendo

Entrevista a Tiago Brazão, elemento do Executivo da Direcção Regional de Lisboa do PCP.

“Uma política patriótica e de esquerda, por um Portugal com futuro.”
“É um governo de classes”

Tiago Brazão, elemento do Executivo da Direcção Regional de Lisboa do PCP, explica nesta entrevista como é que funcionaria uma política patriótica e de esquerda, e que este é um caminho que coincide com a preparação da saída do euro e a recuperação da soberania monetária e fiscal.

Para o PCP uma renegociação da dívida será feita em vista ao interesse do povo português ou dos Credores?

Tiago Brazão:Para o PCP, em primeiro lugar estão os interesses do povo português, essa é uma questão fundamental. Existe um ponto de partida, a dívida pública é insustentável, o estado português gasta mais dinheiro com juros da dívida pública do que com o sistema nacional de saúde.

Depois é preciso analisar de onde vem esta dívida, quando o país entrou no euro a dívida pública representava 60% do PIB, hoje representa 130% do PIB, mesmo que o Estado durante um ano não despendesse dinheiro algum, não chegava para pagar esta dívida.

Por outro lado, nos últimos 3 anos, contrariamente à propaganda do governo, a dívida pública subiu 50 mil milhões de euros, com este governo do PSD e do CDS, por isso consideramos que é necessário libertar os meios necessários para investir no país, e para aliviar a carga fiscal que está imposta sobre os trabalhadores e sobre o povo.

Qual é que seria a maneira mais viável de proceder a esta renegociação?

TB: A renegociação da dívida pública terá sempre de ser feita em defesa dos interesses dos trabalhadores, e pode assumir diferentes opções.

Pode ser alvo de renegociação, ou então, a tomada de medidas unilaterais do Estado português, enquadrada numa política mais geral, no que o PCP considera uma política patriótica e de esquerda.

Depois temos de perceber que a dívida pública está ligada a muitos outros factores, nomeadamente o facto de Portugal ter abdicado da sua soberania monetária e fiscal, ou seja, a entrada do euro.

Porque é que Portugal recorre sucessivamente, aquilo que se denomina erradamente, os mercados, que são os grandes grupos económicos? Quando Portugal vai ao mercado, está a pedir um empréstimo, em vez de imprimir a sua própria moeda, estando-se a endividar num círculo vicioso.

Desta feita, a renegociação da dívida, faz sentido, se por exemplo, acompanhada da recuperação da soberania monetária do nosso governo, depois tem de se perceber se a barreira da União é parte do problema, ou faz parte da solução, mas pelo dados que temos acesso, parece-nos que a União Europeia faz parte do problema, devido às regras que ostenta, por exemplo que Portugal peça dinheiro emprestado ao Banco Central Europeu, ao invés, o Banca Central Europeu emprestar dinheiro à banca, e esta depois comprar parte da dívida pública a Portugal, o que eleva o juro em muito.

Esta parte da dívida pública, referente ao juro elevadíssimo da Banca, o PCP considera que seja ilegítima, um referencial que resulta de um roubo ao nosso país.

A renegociação da dívida passaria por um perdão da dívida?

TB: Nós não consideramos que seja um perdão, consideramos a rejeição da parte ilegítima dessa dívida, que é diferencial entre o juro aplicado pelo Banco Central Europeu (0,5) e o juro aplicado depois pela banca que varia entre 3% e 5%, que sabemos que em determinados períodos alcançou os 14%.

Além disso, consideramos também que é preciso renegociar os prazos, e os montantes que estão envolvidos.

Nós temos uma proposta feita à Assembleia da República que tem a ver com adaptar o nível de pagamento à capacidade de crescimento do país.

Para o PCP, uma possível renegociação da dívida e a possibilidade de abandonar o euro, está mais distante hoje do que há dois ou três anos?

TB: A Cada dia que passa essa situação mais perto, este governo não representa os interesses do povo nem dos trabalhadores, é um governo de classes, e esse é um grande perigo, no entanto, essa acção tem de convergente com os outros países para que de melhor forma se possa defender os interesses dos povos, é importante salientar, que esta acção e a política alternativa de esquerda que o PCP propõe não se traduz num ato isolado como o abandono do euro.

O governo pode tentar mostrar que o caminho está a ser cumprido, mas após todos os cortes que o país tem sofrido nos últimos anos, a dívida não pára de aumentar, isto é factual, é quase ilusão pensar que se pode pagar esta dívida.

Isto coloca-nos um problema, no momento em que se colocar ao país por parte da União Europeia, por parte do que se designam os credores, a necessidade de sermos empurrados para fora do euro e da União Europeia, por ser impossível cumprir as regras que a própria União Europeia instituiu, vai levar o país a tomar decisões que não foram devidamente preparadas.

O governo deve preparar o cenário em que o país se encontra, para conseguir tomar esse caminho alternativo.

Uma política geral, passa por uma política específica em que condições?

TB:É uma questão muito complexa, mas uma das questões que é fundamental e que o PCP aponta, e a dinamização do aparelho produtivo nacional, pois um dos grandes problemas que Portugal apresenta é o défice da balança comercial, pois importamos muito mais do que aquilo que exportamos.

Estamos a falar de um país que aquando da entrada no euro gerava muito mais riqueza do que aquilo que gera hoje, e com novas políticas fiscais ainda se agrava mais.

Um exemplo, foi a SOREFAME, uma empresa que era pública e que fechou, porque passamos a comprar as carruagens e a sua manutenção a Alemanha.

O mesmo se verificou na pesca, na agricultura e por ai adiante.

Para o Partido seria possível Portugal conseguir dar a volta a uma situação que agora é de destruição do sector empresarial público, se Portugal abandonar o euro?

TB: É inevitável, só possuindo os instrumentos económicos nas mãos do Estado é que pode conceber o desenvolvimento do País.

O caso da banca é um exemplo, foi nacionalizada após o 25 de Abril, e o PS na altura de Mário Soares quis crer aos portugueses, que era necessário nacionalizar a banca de forma a gerar rendimentos, no entanto o que se vê hoje é precisamente o contrário, sucessões de roubos e desvios de dinheiro.

Actualmente, o caso da PT é um exemplo, todo um património está a desvanecer-se numa sucessão de desvios de dinheiro, corrupção, más opções estratégicas, um resultado em primeiro lugar de um processo de privatização.

O PCP é uma alternativa a política actual do país?

TB: É uma pergunta interessante mas também muito complexa, não sabemos quando é que a população vai aderir as nossas propostas, mas em parte também se verifica que a maioria da população não conhece o nosso projecto, a nossa política, em parte a culpa cabe aos grandes meios de comunicação que sofrem de grande pressões económicas e, tendencialmente tem uma ideologia associada.

Somos o único partido que vai para as ruas, para os mercados, dar a informação às pessoas fora de períodos eleitorais, e sente-se que o povo reconhece a nossa análise da situação actual do país como correta, a cada dia que passa aderem novos militantes ao partido.

Só a luta dos trabalhadores nos seus locais de trabalho é que podem mudar o país, e colocar o PCP também na governação.

É impossível aumentar salários?

TB: Essa é uma das questões centrais do partido, uma das causas para o afogamento da economia tem a ver com a redução dos salários, tem de se investir no mercado interno, e só se pode investir no mercado interno se as pessoas tiverem dinheiro para comprar.

As empresas não vendem, tem de se reduzir o número de trabalhadores, e cada vez existem menos pessoas a conseguir comprar, o poder de compra dos portugueses baixa constantemente.

Aumentando os salários, a situação do país melhora substancialmente, pois está-se a criar mais riqueza.

Este é um dos eixos principais do Partido?

TB: É, sem dúvida, a distribuição da riqueza do nosso pais é algo que deve mudar, em Portugal existe terrorismo social, jovens que não podem estudar porque não conseguem pagar propinas, trabalhadores em que o ordenado que recebem não chega para suportar as despesas básicas como água e luz.

Tem de se devolver a confiança ao povo.

A solução é as pessoas saírem às ruas e defenderem os seus direitos.

Como tem sido a evolução do Partido na aquisição de militantes?

TB: O PCP tem tido um acréscimo de militantes, em especial jovens e mulheres, o partido neste momento tem uma campanha até Março de 2015 em que o objectivo é angariar 2000 novos militantes.

E esse objectivo está a ser conseguido.

A Festa do Avante é uma ferramenta para angariar novos militantes e para expressar as ideias do partido?

TB: Além de ser uma iniciativa cultural, é também uma iniciativa política com vários objectivos, e um desses objectivos é quebrar a ideia negativa que está associada ao PCP.

Os comunistas não andam todos vestidos de igual, contrariamente ao que os meios de comunicação transmitem.

A Festa do Avante é construída com mão-de-obra na sua totalidade voluntaria, milhares de pessoas constroem a Festa do Avante, e que sem o povo não seria possível de se concretizar.

O PCP é incansável na luta pelas medidas a favor do povo?

TB:Sim, o PCP sabe que na maioria, as propostas apresentadas na Assembleia Da República são rejeitadas, mas o compromisso do PCP é a luta pelo Povo, e por isso não podemos ficar calados.

Tal como no dia 15 vai acontecer uma discussão na Assembleia relativamente ao Sistema Nacional de Saúde.

A Privatização do SNS é apenas uma tentativa de empurrar lucros para os grandes grupos económicos.

O PCP é causador de manifestações?

TB: O PCP sabe que muitas das propostas apresentadas são rejeitadas, mas é uma forma das pessoas também se aperceberem de tudo o que se passa no país, o governo está a ter uma função apenas, a de dar proveitos aos grandes grupos económicos.

As pessoas mais atentas ao trabalho do PCP, sabem que o PCP não se aproveita das situações existentes para seu benefício próprio.

Qual é a reacção do PCP à mensagem de ano novo do Presidente da República?

TB: O Presidente da República é um dos principais responsáveis pela situação actual do país, é o elemento há mais tempo em funções do país, e que sempre esteve ao serviço dos grandes grupos económicos, se lhe podemos elogiar alguma coerência só se for essa.

A única preocupação do Cavaco Silva é proteger os seus e os grandes grupos económicos, portanto esta mensagem de ano novo, é uma pura hipocrisia.

O senhor presidente quando foi Primeiro-Ministro o que fez foi destruir a agricultura e a pesca.

Acha que a mensagem do Presidente foi tendenciosa?

TB: Claro, é o interesse dele defender a sua classe e perspectiva de protecção dos mais importantes grupos económicos.

Nunca se viu o Presidente da República a elogiar os trabalhadores que estão às portas de determinada empresa a tentar impedir que a empresa feche, de forma a poderem manter os seus postos de trabalho, e crescimento da riqueza do nosso país, nem nunca se ouviu o Cavaco Silva a dizer ao governo que as pensões têm de ser aumentadas porque as pessoas vivem na miséria.

Todas as políticas do PCP só fazem sentido se Portugal sair do Euro?

TB: Esse é um passo que mais cedo ou mais tarde vai ter de ser dado, através dos principais eixos que já enumerei anteriormente, e num determinado ponto, em que Portugal deixar de estar preso ao Tratado Orçamental, e recuperar a soberania monetária e financeira, esse será um passo inevitável.

2015 É um ano pós-troika?

TB: A dúvida é se é um período pós-troika, a troika continua na forma PS,CDS,PSD hoje é mais claro que a vinda da troika foi uma farsa para a instalação da politica actual do país, apesar da saída da troika continuam a existir ingerências.

O sentimento do PCP para 2015, é de confiança, confiança que o povo português saberá vencer este desafio que enfrenta, que é vencer a Política de Direita, e construir um Governo Patriótico e de Esquerda, isto não significa um governo comunista, é um governo em que o PCP tenha o seu papel insubstituível, que tem na sociedade portuguesa, mas também tenha outras democratas que acreditem que é possível mudar o país.

Para o PCP, um possível lema para 2015, poderia ser “Abaixo o Governo, e a política de Direita?”

TB: Por uma Política Patriótica e de Esquerda.

Adriano Ferreira

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