O labirinto sírio

O ano de 2016 fica marcado pela contínua tragédia síria.

O Mundo tem observado desde 2011, a um dos conflitos mais sanguinários da história da humanidade. A guerra da Síria, que começou como um protesto pacífico contra o presidente Bashar al-Assad, converteu-se num conflito brutal e sangrento que não apenas afetou a população local, mas que arrastou potências internacionais.

A ONU estima que a guerra tenha feito cerca de 400 mil mortos mas o número deve ser superior, e também provocou um êxodo aproximado de 5 milhões de pessoas do país.

O inicio

Antes do início do conflito, muitos sírios queixavam-se de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão do governo Bashar al-Assad – que havia sucedido seu pai, Hafez, em 2000. Em 2011 surgiram os primeiros protestos, inspirados na Primavera Árabe, que se constatavam pelas ruas das ancestrais cidades do oriente.

Quando as forças de segurança sírias abriram fogo contra os ativistas – matando vários deles -, as tensões se elevaram e mais gente saiu às ruas. Os manifestantes pediam a saída de Assad. A resposta do governo foi sufocar as divergências, o que reforçou a determinação dos manifestantes.

No fim de julho de 2011, centenas de milhares saíram às ruas em todo o país exigindo a saída de Assad. À medida que os levantes da oposição aumentavam, a resposta violenta do governo intensificou-se. Assad prometeu “esmagar” o que chamou de “terrorismo apoiado por estrangeiros” e restaurar o controlo do Estado

A violência rapidamente aumentou no país. Em 2012, os confrontos chegaram à capital, Damasco, e à segunda cidade mais importante do país, Aleppo. O conflito já havia, então, se transformado em mais que uma batalha entre aqueles que apoiavam Assad e os que se opunham a ele – adquiriu contornos de guerra sectária entre a maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente. Isto arrastou as potências regionais e internacionais para o conflito, conferindo-lhe outra dimensão.

Quem luta com quem?

A rebelião armada da oposição evoluiu significativamente desde as suas origens. O número de membros da oposição moderada secular foi superado pelo de radicais e jihadistas – partidários da “guerra santa” islâmica. Entre eles estão o autointitulado Estado Islâmico e a Frente Nusra, afiliada à Al-Qaeda. Os rebeldes moderados requisitaram armas anti-aéreas ao Ocidente para responder ao poderio do governo sírio. Mas Washington e os seus aliados têm procurado controlar o fluxo de armas por receio de que acabem por parar nas mãos de grupos jihadistas.

Qual o envolvimento das potências internacionais?

Os Estados Unidos culpam Assad pela maior parte das atrocidades cometidas no conflito e exigem que ele deixe o poder como pré-condição para a paz. Já a Rússia apoia a permanência de Assad no poder, o que é crucial para defender os interesses de Moscovo no país. O Irão, de maioria xiita, é o aliado mais próximo de Bashar al-Assad. A Síria é o principal ponto de trânsito de armamentos que Teerão envia para o movimento Hezbollah no Líbano – a milícia também enviou milhares de combatentes para apoiar as forças sírias. Estima-se que os iranianos já tenham desembolsado biliões de dólares para fortalecer as forças sírias.

Já os EUA mantêm uma relação estreita com as forças curdas, que são hoje alvo de perseguição do governo turco.

Como estão as coisas?

Os combates perduram entre as forças do regime sírio e rebeldes, perto de Damasco, o que prolonga a falta de água na capital, uma semana antes das negociações de paz no Cazaquistão.

Após um início promissor, o ano de 2016 foi o pior no que se refere à morte de civis até agora na guerra da Síria, de acordo com o presidente da Comissão de Inquérito da ONU sobre o país, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. “Se compararmos o ano de 2016, acredito que foi o pior em termos de ataques contra a população civil, ou seja, houve uma escalada em termos de envolvimento militar por todos os lados contra a população civil”, disse Pinheiro. “Foi um ano trágico para a população”.

Os acordos pela paz têm fracassado constantemente. O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação do Comunicado de Genebra, adotado em 2012 na cidade suíça, que contempla um governo de transição com amplos poderes executivos “baseado no consentimento mútuo”.

Porém, as negociações de paz de 2014, conhecidas como Genebra 2, foram interrompidas. A ONU responsabilizou o governo sírio por se recusar a discutir as demandas da oposição. Um ano depois, a ascensão do grupo auto-denominado Estado Islâmico deu novo ímpeto pela procura de uma solução pacífica. Em janeiro de 2016, os Estados Unidos e Rússia conseguiram convencer as partes em conflito a participar em “conversas de aproximação”, em Genebra, para implementar o plano da ONU. Mas as negociações foram suspensas ainda na fase preparatória, depois das forças de segurança sírias lançarem uma ofensiva contra a cidade de Aleppo, no norte do país.

Enumerados os difíceis desafios enfrentados pelos agentes humanitários na Síria no ano passado, o enviado da ONU para o país, Jan Egeland, disse dia 5 deste mês, que 2017 precisa de “ser um ano de mudança e de diplomacia.”.

Também o novo secretário-geral da ONU, o português António Guterres, disse que “a minha intenção, nas áreas onde a ONU pode ser chamada a intervir, é garantir que temos uma abordagem aos direitos humanos completa e progressista”.

Entre curdos, sunitas, terroristas, americanos, turcos, russos e forças militares sírias, esta guerra tem sido um genocído grotesco, que tanto tem manchado de sangue o solo sírio, como o mar mediterrâneo que tem sido uma “câmara de gás” para aqueles que em busca de uma vida o tentam atravessar.

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Fontes: BBC, ONU, Expresso, Observador , Público

Marcelo Teixeira

FT: IMGUR

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