O Tempo do Maria Matos

Visita dos alunos de Ciências da Comunicação e da Cultura (Gestão Cultural) ao Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa.

Programar um Teatro Municipal em Lisboa pode implicar mais do que um olhar local sobre a cidade, os seus públicos e a sua oferta cultural, e exigir uma visão mais alargada a nível nacional (abrangendo, por exemplo, o trabalho dos muitos outros teatros municipais portugueses) e também a nível comunitário (visando-se co-produções internacionais).

Este trabalho ambicioso que conjuga várias visões e «escalas de conteúdos» e que, ao mesmo tempo, se apresenta como «pólo dinamizador da criação independente» é o desafio a que se propõe o Teatro Municipal Maria Matos desde que Mark Deputter assumiu a sua direcção artística nesta última temporada.

Desenvolvida em períodos de quatro meses, a programação do Maria Matos combina agora a dança e o teatro com a música (com programação de Pedro Santos), dando ainda continuidade ao trabalho de programação já reconhecido de Susana Menezes no Projecto Educativo.

Estamos perante uma programação que a cada temporada se guia por um conceito: em conjunto, as programações da dança, do teatro, da música e do projecto educativo têm em comum um conceito que serve de mote às suas propostas e abordagens, e que vem a ser ainda mais esmiuçado nos debates e encontros que o teatro programa de forma a trazer perspectivas pessoais sobre o tema quer por parte de criadores quer por «cidadãos comuns» com experiências profissionais diversificadas.

Ao «Tempo» que guiou esta última programação (que fecha com o ciclo Running Times de Martine Pisani) seguir-se-á o conceito «Transnacional» nos próximos meses, e é aqui que se pressente vir a ser dada maior visibilidade à amplitude e largueza do trabalho de Mark Deputter no Maria Matos.

Apostando-se na criação nacional de companhias independentes e nas parcerias com teatros públicos congéneres, já são vários os sinais da conversão do Maria Matos para co-produtor de espectáculos nestas diferentes áreas, sendo difícil enumerar as digressões que chegaram nos últimos meses a equipamentos tão variados como o Centro Cultural Vila Flor (Guimarães), o Teatro das Figuras (Faro), o Teatro do Tempo (Portimão), o Teatro Municipal da Guarda ou o Teatro Viriato (Viseu).

De forma a potenciar esta co-produções (algumas já bem famosas como o teatro-oficina para o público jovem Hamlet Sou Eu do Teatro Praga) mas também para se dar lugar a uma reflexão conjunta sobre as realidades locais da programação, o Maria Matos tornou-se membro de uma Rede Informal de Programadores que já reúne cerca de cinquenta responsáveis pelas programações de teatros municipais nacionais.

O carácter inédito desta iniciativa (apenas precedida pela breve e já extinta Associação Portuguesa de Programadores Culturais) muito promete em termos de agilidade e «massa crítica» para o trabalho dos programadores nacionais.

Dentro desta prática que reconhece a importância do modelo «redes de programação» para a dinâmica actual da cultura, Mark Deputter prepara ainda extensões das co-produções a outros países, vendo nesta solução uma das melhores estratégias de internacionalização dos criadores nacionais.

O nosso encontro com o Teatro Maria Matos ocorreu a 23 de Abril e constituiu a segunda iniciativa das «Conferências Gestão Cultural’10» da ULHT.

Num primeiro momento, os alunos da ECATI [da Pós-graduação em Programação e Gestão Cultural e da Especialização em Gestão da Cultura e das Artes (1º ciclo CCC)] puderam circular pelos camarins, sub-palco e sala de ensaios e conhecer os membros da equipa técnica responsável pelas diferentes áreas do teatro: da bilheteira à direcção de cena, da sonoplastia aos controlos de luz e à manipulação dos cenários de palco.

De seguida, e já no palco, conversámos com Mark Deputter, o director artístico do MM, com Susana Menezes, programadora do Projecto Educativo e com Catarina Medina, directora de comunicação.

Para além das diversas questões relacionadas com a programação e com a mudança de paradigma no que toca ao facto do teatro deixar de ter produções próprias (e que fomos expondo), os alunos puderam compreender de uma forma integrada as exigências de adequação de uma programação às condições técnicas e logísticas de um equipamento cultural, por mais apto e renovado que seja, tal como é o caso deste, reaberto desde 2006 após uma profunda intervenção a cargo da EGEAC.

Victor Flores

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